Ao eleger, no último dia 31, uma mulher como Presidente da República, brasileiros e brasileiras demonstram amadurecimento no que tange ao rompimento dos preconceitos machistas e sexistas de uma sociedade que aos poucos vai se adequando à dinamicidade da cultura contra a discriminação, e em prol de um lugar mais justo e igualitário para homens e mulheres, sem distinção geracional. Dilma, integrante de um contexto cultural brasileiro, em que a mulher, na sua primeira infância, recebe como forma de brinquedos - panelinhas, fogõezinhos, liquidificadorzinhos - todos relacionados a casa; e ainda, bonequinhas como forma sutil de impor a ela “o cuidar”, ao invés de bola, carrinhos, que poderiam ser remetidos à rua, e, robozinhos, que, ao desmontá-los e na tentativa de remontá-los a criança começa a desenvolver, desde já, sua capacidade intelectual e cognitiva. É dessa forma que começa a educação totalmente sexista da divisão sexual do trabalho em uma sociedade ainda conservadora. Mulher para casa e homem para a rua.
O mundo da criança é fabricado hoje, graças ao avanço da tecnologia, através de uma ultra-sonografia feita no ventre da mãe, momento em que se descobre o sexo do bebê. E a partir daí seus papéis e funções começam a ser delineados pela mãe, pelo pai e por todos e todas que a genitora tem afinidades. Sejam elas por amizade ou relação de parentesco. A nova presidente, parece não ter sido educada assim.
Em meio a tantos e-mails e informações difamatórias, Dilma - a Dona Dilma - como gostava de frizar o candidato opositor, no intuito, de ao dizer “dona”, que esta não estava para a política, já que “dona” é dona de casa, colocando-a no seu lugar, ou seja, a cozinha, ela mostrou que é para a política sim.
Dilma, que não tem um jeito muito meigo, tampouco de coitada - como é o que se espera de uma mulher brasileira - foi à luta, acreditou, debateu, mostrou a que veio e agora fora eleita deixando sobre a vantagem de 10% dos votos, um homem dito experiente por ter participado de vários governos, ora como gestor, ora como Ministro de Estado, e com vasta experiência em gestão pública.
O Brasil, que nos 40 dias que antecederam as eleições, assistiu e participou da incitação de ódio, dividindo não só opiniões, como religiões e entidades, acerca de temas que deveriam ser discutidos no âmbito de Estado, de um país laico, viu-se, agora envolvido em guerras de religiões em função das discordâncias por volta de dois temas polêmicos, mas que jamais poderiam deixar de ser trazidos à baila.
A legalização do aborto e a união civil entre pessoas do mesmo sexo, tomaram rumos jamais esperados e interpretações descabidas que algumas religiões e dentre elas algumas de suas lideranças, aproveitando a inocência e até ignorância por parte de nossa gente, buscavam, através de suas conveniências e a todo e qualquer modo à conquista do voto para seu candidato tucano.
Todavia, o país multi-racial, geograficamente imenso e de grande diversidade cultural mostrou, através do voto, que tais atitudes odiosas estão perdendo espaço em nossa modernidade. Se a cultura é dinâmica, quem vive nela precisa adaptar-se às novas leituras e vivência de mundo. Mesmo porque é preferível ver uma criança sendo criada por um casal homossexual a furtar nos faróis ou ou ficarem jogadas nas portas das catedrais. É preferível sim, dar assistência médica a mandar para a cadeia uma mulher que, grávida de um feto anencéfalo, teve que interromper sua sofrida gravidez, pois já era sabido através de laudos médicos que esta daria à luz um bebê natimorto encurtando aí seu sofrimento. Ninguém aborta porque acha lindo.
Por tudo isso, nós brasileiros e brasileiras devemos agora, fazer valer a real democracia e assim, acreditar que um novo Brasil é possível. Sem, no entanto, deixar de lado pautas importantes que merecem discussões maiores no sentido de ampliar cada vez mais os direitos de igualdade e oportunidade a todos, num país laico e de várias pluraridades. Mesmo porque somos todos iguais não porque a lei nos garante, mas por sermos, acima de tudo, humanos.
Cláudio Carvalho Bento é cientista social pela UFG, especialista em Docência no Ensino Superior pela Faculdade Católica de Anápolis e professor de Sociologia no Centro de Ensino Médio Ary Ribeiro Valadão (CEM Arizinho) em Gurupi-TO.
Texto publicado no Jornal do Tocantins do dia 11 de Novembro de 2010.

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